Dois anos sem João Batista Machado veja um artigo do livro “O imaginário codoense”

As Histórias e Estórias do Fundo do Baú

Perguntam-me Insistentemente o que me levou a escrever “Codó, Histórias do Fundo do Baú”. Histórias guardadas em papéis amarelecidos e até rotos no fundo de um centenário baú. Sempre tive vontade de contá-las, principalmente aos jovens estudantes de minha terra. Algumas fazem parte integrante da história codoense. Haveria de publicá-las, tornando-as conhecidas. Deixariam o morno da solidão.
Vindo a residir na minha cidade, depois de uma ausência de vários decênios, passei a frequentar a Biblioteca Pública Municipal, quando observei a procura de dados sobre a formação da cidadee dos seus primeiros habitantes, a sua miscigenação, o seu comércio, a sua religião, o seu primeiro padre, os seus intendentes, o seu relevo, e a sua bacia hidrográfica. Eram jovens estudantes, pesquisadores,investigadores à procura de subsídios, a fim de efetuarem os seus trabalhos escolares.
Senti-me na obrigação de ajudar estes jovens com os meus parcos conhecimentos sobre a minha cidade. A primeira intenção era escrever uma apostila com o fim de ajudá-los nas pesquisas, mas o assunto dominou-me. Encantou-me. Levou-me à pesquisa de campo, a consultar arquivos, bibliotecas e a visitar lugarejos localizados no interior do município, antigos quilombos ou terras remanescentes de escravos, abundantes fontes da cultura afro-brasileira: antigas fazendas em ruínas e cemitérios perdidos no mato, alojados por cobras e moradas de pebas.
Os meus estudos, as minhas investigações, as minhas pesquisas, as minhas deduções, a Água Fria, que hoje é notícia, o Itapicuru, velho amigo, exigiram a publicação das minhas investidas sobre o passado histórico do Codó.
Enfim, anoite de maio de 1999 marcou um momento ímpar no universo cultural codoense. Foi lançado “Codó, Histórias do Fundo do Baú”. Achava-se presente destacadas personalidades locais e convidados que representam a cultura do nosso estado, como o Magnífico Reitor da Universidade Estadual do Maranhão, Prof. César Henrique Santos Pires, que sempre demonstrou preocupações com o desenvolvimento da cultura do seu torrão natal. Agraciou-me com a publicação do Baú, meu cumplice. Obrigado. Sempre grato.
A noite de autógrafos foi bastante concorrida, não só pelo conteúdo contido no livro, como também, por expressar uma novidade no meio cultural da cidade. Talvez, a primeira noite de autógrafos havida neste município.
O livro não esgotou o assunto sobre a formação do Codó. Estou convicto de queo primeiro passo foi dado. Espero que historiadores e estudiosos concluam o trabalho iniciado, revitalizando o nosso passado histórico. Estou certo de que as minhas pesquisas de 7 anos de trabalho profícuo e às vezes exaustivo pela falta de apoio e incentivo, deram-me a alegria e a certeza de que a rica história codoense está sendo resgatada.
Os obstáculos que tive de enfrentar, motivados pela minha condição financeira e a minha fragilidade física, levaram-me a postergar o lançamento do livro. Muitas pessoas não me davam crédito, diziam mesmo que não existiam pesquisas e muito menos livro a publicar, o que me tornava um impostor, mas aconteceu que o Baú foi aberto, para decepção dos incrédulos.
Não obstante, a pouca divulgação do “Codó, História do Fundo do Baú”, recolhi vários comentários e críticasgenerosos publicados em jornais e revistas de circulação municipal e estadual , o que para mim causou surpresa.
O artista plástico Ambrósio Amorim, hoje falecido, na sua coluna Artes Visuais mantida no jornal O Imparcial de 24 de Agosto de 1999, assim se expressou: “Codó, História do Fundo do Baú é um livro de uma expansão histórica no campo social, político e econômico da próspera cidade de Codó em todo seu envolvimento existencial. O escritor está integrado na realidade que caracteriza muito bem a imagem da próspera cidade no seu contexto histórico, desvendando os mistérios de um brilhante passado dentro de uma existência criativa”.
Já a jornalista Lissandra Leite, sob o título “Codó Revista e Comentada”, escreveu no O Imparcial de 06 de junho de 1999: “Codó – Histórias do Fundo do Baú, não é um livro para todo mundo. Foi feito para codoenses ou para quem quer indicações iniciais para uma pesquisa sobre a região”.
O acadêmico Waldomiro Viana da Academia Maranhense de Letras, após tecer várias críticas relativas à revisão do livro (no que o acadêmico está correto), manifestou-se: “João Batista Machado, em seu trabalho tem a honestidade de revelar que a obra não obedece rigidamente a verdades históricas. Esclarece que há ali muito de ficção, e isso se capta na descrição dos “causos” hilariantes que ele, com muito humor, traz à luz, no relato de situações picarescas, e às vezes tendendo para o ridículo, envolvendo próceres locais: políticos, professoras, jovens idealistas em suas peças teatrais amadoras, e por aí vai. Apresenta-nos, num agradável roldão, tipos característicos da urbe (encontráveis em qualquer cidade interiorana), como loucos mansos, poetas, comerciantes e comerciários, políticos, padres, cada um com sua historiazinha peculiar”. O Imparcial, 13 de maio de 1999.
Todas estas manifestações recebidas, provocadas pelas histórias e estórias retiradas do fundo de um velho baú, foram acolhidas carinhosamente e muito mais ainda abrigadas, quando palavras de estímulo e generosas partiram do Arcebispo Dom José Carlos de Melo e da ilustre antropóloga Maria José Siqueira,comentários que me honram e engrandecem o trabalho editado.
Agora é a vez dos amigos incondicionais.
O professor Carlos Gomes, sempre enluarado, deu o seu depoimento: “João Machado continua se realizando na sua simplicidade; escreve no momento Codó Documental, Codó para Todos (Obra didática) já no prelo, O rei da Angola, romance que se passa em Codó, envolvendo a vida idílica da negritude na época da escravatura”.
“O seu livro, Codó, Histórias do Fundo do Baú, fala de Codó em suas origens, o aspecto político-administrativo, suas lendas e sua cultura em geral. Espera-se que os seus adquirentes não o tenham como adorno de suas estantes, leiam-no, não o levem para o fundo do baú, porque de lá já veio, em forma de estórias, para ser escrita a História de Codó, que até então não tinha” – Revista Leia Hoje, Ano VI – Nº 49 – Ano 2000.
A escritora Mundicarmo Ferretti, nas páginas do seu livro Encantaria de “Barba Soeira” Codó, capital da magia negra? (Coleção Maranhão Sempre – edição 2001), afirmou: “O livro do João Machado é a obra mais completa publicada sobre Codó, mas, como só foi lançado em 1999 e serviu de fonte de informações a vários dos autores por nós aqui comentados, resumi-lo seria repetir muito do que já foi registrado. Codó, História do Fundo do Baú, de 298 páginas, conta a trajetória daquele município destacando suas figuras ilustres, explicando a letra do seu hino, sua bandeira e seus símbolos, o seu nome e o das principais ruas da cidade…Fala sobre ecologia, desenvolvimento econômico, saúde, educação e cultura popular, incluindo nesta as tradições dos negros e fazendo interessantes registros sobre ‘pajeleiros’, macumbeiros e terecozeiros. O livro traz também uma coletânea de documentos históricos e uma seção de ‘causos’ (ficção) ouvido pelo autor desde a infância – mas algumas vezes a ficção invade o seu relato de fatos ocorridos em Codó, como aconteceu em “O Festim dos Macumbeiros” (p.191), em que descreve rituais afro-brasileiros realizados na Lagoa do Pajeleiro…”
Fatos inusitados ocorreram-me no transcurso de minhas pesquisas pelo interior do Município. Transitando por lugares, onde em passado recente localizavam-se antigas fazendas produtoras de cereais e a capela para o vigário em desobriga,a dizer a santa missa, realizar casamentos e batizados. Assim conheci Limoeiro, Arame, Santana dos Marinheiros, SantanaVelha, Livramento e a maior de todas, a Colônia de Marques Rodrigues.
Certo dia, nas minhas andanças interioranas, encontrei vários cemitérios perdidos nos secos matagais. Sepulturas seculares de adobe resistindo às agruras do tempo. Curioso em descobrir quem estava ali sepultado, pedi a uma garota que me auxiliava, que ela subisse na tumba, a fim de ler o nome do “locador”. A garota subiu munida de papel e caneta. Aconteceu o desprazer. A sepultura afundou e a menina caiu em cima do esqueleto, quebrando a sua ossada.
Tomada de pânico gritava desesperadamente: “tire-me daqui, tire-me daqui”.
A minha companheira de pesquisas de campo, muito nervosa, dominada pelo medo, achava-se envolvida por uma nuvem de poeira vermelha. Naquela condição, gritava, imploravasocorro.
“Calma”, dizia eu. Era somente o que sabia dizer. Lembrei-me de um casebre de lavradores, localizado naquela redondeza. Pedi ajuda. O camponês colocou galhos de árvores na cova que serviriam de escada. Conseguiu tirar a garota assustada e nervosamente chorona do buraco.
Depois, de debelado o choro, mais calma, tomado banho, a dona da casa, humilde camponesa, emprestou-lhe um vestido, para que ela pudesse retornar à cidade do Codó.
Desde então, a garota negava-se a participar de pesquisas a velhos cemitérios e restos de fidalgas fazendas.
Perdi a minha fiel parceira.

João B. Machado, pesquisador, historiador e escritor codoense.