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O melancólico terminal de uma fábrica. Por João Batista Machado

O Capítulo que se vai ler está embasado num “Estudo sobre a Rua Cônego Mendonça,” antiga Rua dos Navegantes, de autoria de Vicente Prado Pontes (19/04/1990). Chegou as minhas mãos, através do seu filho Giotto Prado Pontes.

O referido Estudo não se limita, apenas, ao histórico desta via pública que homenageia o Vigário Evaristo Ribeiro de Mendonça que pelos seus serviços desempenhados, tornou-se um autêntico líder codoense, mas também, relata fatos ligados ao surgimento da antiga fábrica de tecidos da cidade.

A abolição da escravatura causou efeitos negativos na florescente e essencialmente agrária Vila do Codó. A sua produção agrícola foi sensivelmente ameaçada, principalmente a colheita do algodão, do milho, do arroz e da mandioca. Essa grave situação refletiu nas finanças da progressiva comunidade.

Os escravos foram libertados em 1888. Não havia mais a mão servil, produtora de riquezas. O trabalho, agora, exigia remuneração. Os proprietários de grandes extensões de terras procuraram encontrar uma solução para o grave problema financeiro que atingia a todos os fazendeiros. Resolveram convocar uma reunião, Convidaram o esclarecido Cônego Evaristo de Mendonça, que pelas suas qualidades pessoais, tornou-se estimado e conselheiro da família codoense, tanto assim, que foi escolhido para exercer a Intendência do Codó no período de 1901/1904.

A solução encontrada, após vários debates, seria a instalação de uma fábrica de tecidos. O Cônego Evaristo foi o elemento escolhido, capaz de sensibilizar os capitalistas da capital da província, a vender a ideia da implantação da tecelagem. José Emilio Lisboa, um dos maiores detentores de riquezas, na época, na Província, abraçou a ideia e formou um grupo econômico, no sentido de implantar a indústria têxtil em Codó.

A Inglaterra, com o advento da Revolução Industrial, arquivou velhos teares, considerados ultrapassados, devido o surgimento de maquinário moderno e de novas técnicas e anunciou a venda das máquinas obsoletas. As velhas máquinas foram adquiridas e instaladas pelo técnico Mac-Tawes, em Codó. As plantas das edificações foram arquitetadas pelo engenheiro Palmerio Cantanhede.

A responsabilidade pela implantação da indústria têxtil, serviço administrativo e gerenciamento ficou a cargo de João Pedro Ribeiro. Como mestre de obras, foi contratado Raimundo Soeiro, responsável pela construção de prédios, fornalhas, muros e da chaminé.

O teste do perfeito funcionamento da fábrica deu-se satisfatoriamente em 1892, entretanto a sua inauguração aconteceu em junho de 1893, conforme relata o escritor Joaquin Itapari no seu livro, A Falência do Ilusório: Memória da Companhia de Fiação e Tecidos do Rio Anil. Ed. ALUMAR. Tabela 4. Achava-se apta para atender os contatos firmados pertinentes à venda de tecidos.

A tecelagem tão aguardada, como fonte proporcionadora do progresso e do desenvolvimento da Intendência, geradora de empregos, encerrou as suas atividades comerciais na década de 1940. Alegaram os seus diretores que a causa primordial do seu encerramento foi a falta de crédito bancário. O Banco do Brasil, devido a guerra mundial (1939/1945), restringiu o crédito. As encomendas e as vendas comercias caíram assustadoramente. A empresa sem capital de giro para cumprir os seus compromissos contratuais, resolveu fechar a suas portas, ciente que causaria o desemprego. Os cofres do município seriam atingidos.

O majestoso prédio que abrigava a tecelagem (Companhia Agrícola e Manufatureira do Maranhão) está em ruínas, em estado terminal. Monumento histórico,

criminosamente abandonado pelas autoridades incompetentes, descompromissadas com a cultura codoense.

O espaço físico que a empresa têxtil ocupou como suas dependências, reformadas, dariam lugar a um excelente auditório para conferências, convenções e outros eventos de natureza cultural. Bibliotecas, salas aparelhadas para projetar filmes educativos sobre ecologia, história, geografia, assuntos biológicos, problemas sobre sanidade que afetam a comunidade, encenação de peças teatrais do repertório clássico brasileiro e estrangeiro, seriam uma apreciável contribuição à cultura e à educação.

Codó guarda uma gama de estórias fantásticas: assombrações, visões sobrenatuarais, que vagam pelos casarões abandonados, nas antigas moradias de sisudos cavalheiros, nos vestígios das senzalas, nos troncos, instrumentos imprescindíveis das torturas, nos cemitérios perdidos na mata, na cova rasa de uma “coisa” escravizada ou de algum miserável camponês, que talvez morreu de fome.

Zé Firmino, antigo foguista da fabrica de tecidos, contou-me que ao regressar de uma sessão no terreiro de Nhá Mundica, na localidade Doze, sentiu que algo estranho o seguia na sua caminhada solitária de meia noite e meia. A estrada estava envolta numa cerrada escuridão. Apressou os passos rumo à cidade do Codó.

De repente, se viu no adro da Igreja de São Sebastião. O céu escuro, sem lua, sem estrelas, denunciava a aproximação de chuvas.

Na quietude da noite, o silêncio foi despertado por uma suave e melodiosa voz. Estranhou. Olhou em direção à fabrica. Estupefacto, extasiado ficou. O prédio da tecelagem encontrava-se iluminado. Do seu telhado fluíam focos de luzes. Realizava-se uma festa. Os sons musicais eram abafados pelos ruídos dos teares que funcionavam.

A chaminé soltava uma nívea fumaça azul, que subia ao espaço aéreo e se transformava em moças vestidas em camisolas brancas. Pousavam no teto, mostravam os braços e as mãos mutiladas pelos teares. Entoavam canções:

Estrelinhas, estrelinhas

Da cor do céu,

Da cor do mar

Sagrada lua, luar

Livrai as pipirinhas

Da maldade do tear.

E em algazarra evoluiam para o espaço. Penetravam nas nuvens. Regressavam ao sossego das almas benditas.

Zé Firmino tomou coragem, rumou em direção à Rua da Bomba, onde morava. Entrou, bebeu água e procurou dormir. Dormiu, nada. Levantou-se cedo para o trabalho. Não revelou aos amigos o acontecido.

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