Lideranças Yanomami cobram governo Lula por descaso com saúde indígena

Representantes de sete associações que atuam em defesa dos direitos dos Yanomami apresentaram uma carta ao governo Lula, direcionada ao Ministério da Saúde e à Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), denunciando falhas graves na gestão do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami e Ye’kwana (DSEI-YY).

O documento denuncia falta de transparência, centralização excessiva, abandono de obras e contratos milionários sem licitação, além da ausência de dados essenciais sobre a saúde indígena na região.

Falta de autonomia e decisões centralizadas

As lideranças criticam a exclusão do DSEI-YY dos processos decisórios, especialmente nas contratações realizadas via Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS). Segundo elas, a pré-seleção dos profissionais está sendo feita em Brasília, restando à coordenação local apenas entrevistar os nomes previamente indicados.

A carta afirma:

“Constata-se a ausência de autonomia administrativa e gerencial por parte do DSEI-YY, o qual, na prática, encontra-se impossibilitado de realizar contratações para cargos de confiança, medida indispensável à construção de uma política de saúde efetiva e culturalmente adequada”.

Ministério da Saúde responde

Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que a coordenação do DSEI participa das decisões sobre contratações e que o processo atual atende a recomendações do Ministério Público do Trabalho (MPT) e do Tribunal de Contas da União (TCU).

Segundo o governo, os editais foram elaborados com participação local e da sociedade civil.

Falta de dados e fiscalização

As lideranças também denunciaram a ausência de informações sobre a contratação e avaliação dos Agentes Indígenas de Saúde (AISS):

“Não sabemos se estas avaliações estão sendo feitas, como estão sendo feitas, com qual frequência e parâmetros. Tal omissão compromete a nossa fiscalização da qualidade dos serviços prestados”.

A falta de dados atinge ainda o centro de saúde de Surucucu, parceria entre a Central Única das Favelas (Cufa) e a Frente Nacional Antirracista, que, segundo os líderes, carece de transparência sobre funcionamento e estrutura.

Obras paradas e contratos suspeitos

A carta menciona que as obras da Casa de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kwana (Casai-YY), em Boa Vista, estão abandonadas. Os indígenas dizem não ter informações sobre capacidade de atendimento, abrangência territorial ou data de inauguração.

Outro ponto grave é o suposto monopólio da Voare Táxi Aéreo no transporte de insumos e remoções aeromédicas. A empresa é ligada à deputada federal Helena da Asatur (MDB-RR) e seu marido, investigados pela Polícia Federal. A Voare teria recebido R$ 271 milhões em contratos desde o início do governo Lula, dos quais R$ 96 milhões foram fechados sem licitação.

Exposição ao mercúrio e recursos esgotados

As lideranças também cobraram a implementação do Manual de Atendimento aos Indígenas Expostos ao Mercúrio, elaborado pela Fiocruz, que continua inativo e sem capacitação para os profissionais.

Por fim, os representantes denunciam que os recursos emergenciais da crise humanitária na Terra Yanomami estão esgotados, e exigem reconstrução urgente do DSEI-YY, com retorno ao modelo descentralizado baseado em experiências anteriores.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *