
A prisão da advogada Poliane França Gomes, conhecida nas investigações como “Rainha do Sul”, no âmbito da Operação Rainha do Sul, expôs mais um capítulo da relação entre o sistema prisional brasileiro e o fortalecimento de facções criminosas.
Segundo investigações conduzidas pela Polícia Civil da Bahia e reveladas inicialmente pelo Fantástico, Poliane não apenas atuava como defensora de integrantes do Bonde do Maluco (BDM), como teria assumido funções estratégicas dentro da própria organização criminosa, mantendo vínculo direto com uma de suas lideranças mesmo após a prisão do chefe da facção. Segundo a investigação, ela transmitia ordens criminosas do traficante Leandro da Conceição Santos Fonseca, conhecido pelos vulgos de ‘Léo Gringo’ e ‘Shantaram’.
De acordo com os investigadores, o relacionamento entre a advogada e um dos líderes do BDM começou no ambiente prisional, durante atendimentos jurídicos. Com o tempo, a relação extrapolou o campo profissional. O cadastro de visitas foi alterado, permitindo acesso mais frequente ao detento, o que, segundo a polícia, facilitou a troca de informações sensíveis entre o líder preso e integrantes da facção em liberdade.
Interceptações telefônicas e mensagens analisadas no inquérito indicam que Poliane passou a ser identificada pelo codinome “Rainha do Sul” ou pela sigla “RS”. A investigação aponta que ela transmitia decisões da cúpula da facção, cobrava disciplina interna, organizava repartições de território e intermediava movimentações financeiras. Em uma das frentes da apuração, a polícia sustenta que a advogada exercia papel ativo na logística do grupo, indo além de uma eventual omissão ou conivência.
Reportagens exibidas pelo Fantástico apontam ainda que mensagens atribuídas à investigada continham ameaças diretas a comparsas e rivais, com frases como “quem não pagar vai pagar com a vida”, expressão que, segundo os investigadores, ilustra o grau de controle e violência empregado pela facção para impor regras internas e garantir o fluxo financeiro do tráfico.
A Justiça baiana converteu a prisão em preventiva e determinou a transferência da advogada para uma unidade prisional de maior controle, destacando risco à ordem pública e possibilidade concreta de continuidade delitiva. No cumprimento dos mandados, foram apreendidos aproximadamente R$ 190 mil em espécie, além de outros bens que passarão por apuração quanto à origem.
O Bonde do Maluco e a estrutura do crime na Bahia
O Bonde do Maluco (BDM) surgiu por volta de 2015, dentro do Complexo Penitenciário da Mata Escura, em Salvador. Assim como outras facções brasileiras, sua origem está diretamente ligada à dinâmica do sistema prisional, onde grupos se organizam inicialmente para proteção interna e, posteriormente, expandem suas atividades ilícitas para fora das unidades.
Atualmente, o BDM é apontado por investigações e relatórios de segurança pública como uma das principais facções da Bahia, com atuação no tráfico de drogas, homicídios, extorsões e disputas territoriais, sobretudo em Salvador e na Região Metropolitana. Informações reunidas pelas forças de segurança indicam que o grupo mantém alianças pontuais com facções nacionais, como o Primeiro Comando da Capital (PCC), ao mesmo tempo em que disputa território com organizações rivais, incluindo grupos ligados ao Comando Vermelho e outras facções regionais.
Um dos elementos centrais da atuação do BDM, assim como de outras organizações criminosas brasileiras, é a manutenção do comando a partir de dentro dos presídios. Mesmo presos, líderes continuam exercendo influência sobre decisões estratégicas, controle de áreas e fluxos financeiros. A presença de intermediários externos — advogados, familiares ou companheiros — aparece de forma recorrente nas investigações como um dos principais vetores dessa comunicação.
O acesso a clientes presos é um direito essencial à ampla defesa, mas pressupõe responsabilidade ética e legal. Quando esse acesso é utilizado para facilitar ou integrar atividades criminosas, deixa de ser garantia constitucional e passa a ser instrumento de violação da lei.
A OAB da Bahia informou que acompanha o caso e poderá instaurar procedimentos disciplinares, a depender da confirmação dos fatos. Se comprovadas, as condutas atribuídas à advogada podem resultar tanto em sanções administrativas quanto em condenações penais por crimes como organização criminosa, lavagem de dinheiro e tráfico de drogas.
Opinião do autor
É importante destacar que episódios como este não representam a advocacia como um todo, mas expõem fragilidades nos mecanismos de fiscalização e controle, especialmente em ambientes prisionais dominados por facções estruturadas.
Operações policiais são necessárias, mas tendem a produzir efeitos limitados quando não vêm acompanhadas de políticas consistentes de controle carcerário, bloqueio de comunicações ilegais e responsabilização rigorosa de todos os elos da cadeia criminosa, inclusive aqueles que atuam fora do perfil tradicional do crime.
O envolvimento de profissionais com formação superior e acesso institucional demonstra que o crime organizado no Brasil não se sustenta apenas na marginalidade clássica, mas também na cooptação de quadros que conhecem o funcionamento do Estado e exploram suas brechas.
