Carnaval de Lula no Rio abre suspeitas de propaganda eleitoral antecipada

O Carnaval é uma ocasião em que a política e os políticos são tradicionalmente lembrados — em raríssimos casos pelo lado positivo. Uma dessas exceções promete provocar um fuzuê no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Na noite de domingo 15 de fevereiro, a Acadêmicos de Niterói, a primeira agremiação a entrar na avenida, vai homenagear o presidente Lula.

Não será uma homenagem qualquer. Durante mais de uma hora, 3 100 componentes distribuídos por 25 alas vão contar e

cantar a história do menino pobre que nasceu no interior de Pernambuco, enfrentou as dificuldades de um retirante fugindo da fome, engraxou sapatos na cidade grande, aprendeu um ofício,

irou operário, dedicou-se a defender sua categoria, fundou um partido político, enfrentou a ditadura, se elegeu três vezes presidente da República, melhorou a vida dos brasileiros, foi preso injustamente, salvou a democracia e se transformou em um respeitado líder mundial. “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”, arremata o refrão do samba-enredo, reproduzindo o velho e conhecido jingle das campanhas eleitorais do petista. Um clipe da música, editado pelo PT e impulsionando essa epopeia, circula pelas redes sociais desde o ano passado e já acumula milhares de visualizações.

Na sexta-feira 30 de janeiro, a Acadêmicos de Niterói realizou o primeiro de dois ensaios técnicos antes do desfile na Marquês de Sapucaí. Um detalhe chamou a atenção: montagens que foram projetadas nos telões da avenida com a imagem de Jair Bolsonaro. O ex-­presidente apareceu vestido de presidiário, usando máscaras hospitalares e chorando. As frases que acompanhavam os memes debochavam de sua situação jurídica, ironizavam as investigações nas quais ele ainda é alvo e lembravam de algumas de suas declarações mais extravagantes. Se a ideia era ironizar, o objetivo não foi alcançado. Se era polemizar, pode-se dizer que a agremiação ganhou sua primeira nota 10. “Assim como a Lei Rouanet e nos presídios, sem novidade no chamado Carnaval brasileiro”, comentou o ex-vereador Carlos Bolsonaro. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) foi mais direta, acusando a escola de fazer propaganda disfarçada para promover a candidatura de Lula. A parlamentar ingressou com uma ação no Ministério Público Eleitoral pedindo a proibição da transmissão do desfile e a suspensão dos repasses de recursos públicos à Acadêmicos de Niterói.

O Tribunal de Contas da União também entrou na dança. Provocada, a Corte responsável por fiscalizar a correta aplicação dos impostos dos contribuintes intimou a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), que organiza o desfile, o Ministério da Cultura e a Embratur a dar explicações. Os técnicos do TCU recomendaram a imediata suspensão dos repasses federais. A Acadêmicos de Niterói recebeu 1 milhão de reais da Embratur, assim como todas as demais agremiações. No caso de Niterói, há muito mais dinheiro público envolvido. O restante do orçamento do desfile, 12 milhões de reais, virá do governo do Rio (3,3 milhões), da prefeitura carioca (2 milhões), da prefeitura de Niterói (4 milhões) e dos direitos de imagem (3 milhões). O ministro Aroldo Cedraz, relator do caso no TCU, deu quinze dias para que as entidades apresentem os documentos, prazo que termina após o Carnaval. Se for encontrada alguma irregularidade, os responsáveis podem ser punidos com multas e obrigados a devolver o dinheiro. Por enquanto, nada aponta nessa direção. Em nota, a Embratur informou que apoia financeiramente o desfile, mas não interfere na escolha dos sambas-enredo. “O nosso homenageado é um político, naturalmente terão elogios a ele e a coisas do PT, mas não é propaganda”, garante o carnavalesco Tiago Martins.

Fonte: Revista Veja

 

 

 

 

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